PARA UM SUL GLOBAL DEFINIDO POR PRÁTICAS






Alex Flynn, Durham University
Originalmente publicado na revista Select, no dia 28 de outubro, 2015



Na busca por uma definição do ‘sul global’, muitas tentativas são limitadas pelas pressuposições a priori implícitas em suas próprias contenções. Uma tendência clara, por um lado, é a de configurar o sul global como ‘contranarrativa’ às epistemologias centradas na Europa e nos Estados Unidos. Sob este prisma, a ideia de sul global torna-se inerentemente secundária, reiterando uma narrativa dominante e propondo um projeto epistemológico que só pode ser entendido comparativamente. Por outro lado, algumas definições constroem o conceito de sul global em relação a uma proposta geográfica, e assim demarcam o ‘sul’ com base em cartografias do espaço, talvez presumindo que os estados ‘subalternos’ estarão eternamente presos a transações exploradoras com parceiros dominantes. Já foi demonstrado que esta definição é redundante. Desde o final da década de 1970, a ‘teoria da dependência’ de André Gunder Frank, com sua abordagem inerentemente determinista, foi subvertida pela intrusão temporal e pela mudança nas relações da economia política internacional. Está claro que os conceitos acerca do que constitui o sul global vão muito além dos meros indicadores econômicos, mas ainda assim vale notar como os países que Gunder Frank situou indefinidamente na ‘periferia’ passaram a integrar o que ele denominou o ‘centro’. Em 1984, a taxa de inflação anual do Brasil foi de 192,12% e a dívida externa com bancos e governos somava US$ 104 bilhões. Em 2009, a inflação anual no Brasil era estável em 4,847% e, naquele ano, o país pagou toda sua dívida ao FMI pela primeira vez, além de comprar US$ 10 bilhões em títulos do FMI para reforçar sua posição como credor ao invés de devedor. Definições estanques de sul global já não refletem realidades complexas. Sendo assim, parece importante nos distanciarmos de definições de sul global enquanto entidade geograficamente circunscrita, ou enquanto simples contranarrativa à hegemonia, e nos aproximarmos da ideia de um emaranhado de discursos e práticas, de uma ‘aventura epistemológica’ derivada de modos de existência múltiplos e subjetividades políticas diversas.

Nesta tentativa de configurar o conceito de sul global sem cair nas armadilhas descritas acima, é importante que nos lembremos da singularidade e da importância de tal projeto. Como Kelly Gillespie, antropologa na Univerisidade do Witswatersrand descreve, ‘modificar a base de nosso conhecimento é modificar nossa maneira de estar neste mundo’ e a ressonância de tal projeto é clara. Para Gillespie, elaborar um projeto caracterizado pelo conceito de sul global é desfazer a violência epistemológica inerente a sistemas pejorativos de representação, propagados e aceitos por tanto tempo, e habilmente desconstruídos por intelectuais pós-coloniais como Edward Said e Gayatri Spivak. Para Gillespie, estes sistemas de representação são responsáveis pela criação de hierarquias violentas, e somente por meio da elaboração de uma prática de conhecimento relativa ao sul global é possível desfazer a violência estrutural inerente à epistemologia do capitalismo global.

Em tal projeto, entretanto, há que se perceber tensões importantes desde o início. A teoria do ‘Perspectivismo’ de Eduardo Viveiros de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro pede que contemplemos a possibilidade de construir um novo tipo de conhecimento baseado em modos alternativos de existência. Ela questiona a validade do paradigma do relativismo cultural, há muito estabelecido por Franz Boas, ao afirmar que, baseado num sistema de conhecimento científico, o relativismo cultural não deixa em aberto a possibilidade de que se alterem as regras básicas da realidade por meio de epistemologias nativas. Em outras palavras, já que todos os povos do sistema Boasiano de ‘culturas’ compartilham de uma só realidade, que só pode ser explicada pela ciência, o relativismo cultural apenas tolera outras ontologias em sua própria estrutura, e talvez assim se aproprie delas. Para Viveiros de Castro, portanto, as ontologias Ameríndias possuem um caráter único, e logo constituem uma plataforma possível para a construção de um sistema de conhecimento que pertença ao sul global.

Nesse sentido, questões importantes devem ser levadas em conta. Em primeiro lugar, que tipo de legitimidade se confere ao denominar o sul global uma instância de ‘contranarrativa’? Será que a denominação ‘contranarrativa’ torna o projeto cúmplice, desde o início, em sua própria subjugação? Em segundo lugar, já que este artigo é escrito no contexto brasileiro, será que sua proposta pretende inscrever-se no conhecimento global ou num conhecimento global específico e tangível do ‘Brasil’? Em outras palavras, será possível dissociar a especificidade do local da elaboração e produção de algo global? E, em terceiro lugar, se vamos aceitar que há algo fundamental e ontologicamente único no conhecimento produzido no âmbito do sul global, e se buscamos criar diálogo ou reconhecer a ideia e o potencial de uma histoire croisée, (a interdependência através de fronteiras nacionais e como esta interdependência gera significação), como podemos pensar estas conexões por si sós?

Conciliar a especificidade do local com os problemas de representação frequentemente criados pelo global não é tarefa fácil. Parece essencial reconhecer a especificidade e o caráter único dos sistemas de conhecimento que existem ao largo das narrativas dominantes, mas não agregam sua singularidade a uma contranarrativa homogênea. Nesse contexto, eu diria que o sul global pode ser teorizado produtivamente como um emaranhado de práticas múltiplas e efêmeras. Essas práticas ocorrem de modo transnacional e, embora sejam, assim, globais, são inspiradas por uma elaboração teórica do conhecimento que é local. Desse modo, epistemologias específicas e únicas asseguram que uma prática seja inscrita regionalmente, porém representada globalmente. Reunidas, essas práticas representam uma plataforma que busca ‘ressignificar’, uma plataforma erigida sobre discursos locais de conhecimento que participam de uma conversa global de compatibilidade, e não de comparação. Eles recuperam e até sublinham diferenças inerentes de especificidade e lugar, e ao mesmo tempo se distanciam do provincianismo que permitiria que as diferenças definissem seu projeto.

O emaranhado de práticas que afirmo caracterizar o sul global apresenta uma nova proposta, que convida as pessoas a criarem seu próprio significado num sentido intrinsecamente múltiplo, efêmero e baseado no social. Um exemplo de elo nessa corrente pode ser visto nas conexões entre prática artística e relacionalidade, e na elaboração de significado para os protestos e as mudanças. Essa rede de práticas e praticantes abre frentes de debate ao incentivar a interação através de instâncias experimentais e de vanguarda da arte contemporânea. Estes trabalhos respondem a um paradigma estético diferente: no livro Estética Relacional, Nicolas Bourriaud afirma que a arte não deve ser julgada com base em critérios de ‘beleza’, e sim com base nas relações que uma obra proporciona e nos modelos de sociabilidade que propõe. Segundo essa visão, uma obra de arte “tem, como seu horizonte teórico, o âmbito das interações humanas e seu contexto social” criando ‘micro-utopias’, espaços temporários nos quais as pessoas podem dialogar e criar significado de modo democrático. Jim Elkins disse que neste tipo de espaço, ‘ver é metamorfose, não mecanismo’ e aí reside o potencial político da arte relacional – esses projetos pedem que seus participantes contribuam com seu próprio significado, ao invés de dar a eles uma mensagem pronta, e assim instigam um senso de desenvolvimento ético próprio. Desta forma, o conceito de estética relacional de Bourriaud, tem implicações diretas sobre os modelos de socialidade e em parte justifica a minha convicção de que em se tratando dos modelos de existência propostos pelo sul global, os movimentos sociais e arte contemporânea têm algo importante a contribuir.

As instalações site-specific do movimento Occupy, sua coreografia humana e as ações de protesto por mudanças realizadas pelo movimento Global Justice, para mim, possuem uma relevância interessante à pesquisa artística atual: o apelo de Tania Bruguera por um espaço publico livre de censura; a proposta do Opavivará de representação do conhecimento tradicional; e a representação do Movimento dos Sem Terra da condição de sem-terra através de sua performance, mística. Eu diria que todos esses acontecimentos são exemplos de performance política e sugeriria que em todos esses eventos, podemos começar a compreender as práticas do que constitui o sul global, cada um deles um convite, guiado por uma epistemologia localmente específica, a que as pessoas construam sua própria subjetividade política múltipla.

Neste sentido, essas propostas ético-estéticas são um chamado à horizontalidade e à reflexão. Mas o que, mais especificamente, conecta esses exemplos às práticas do sul global? Em todos esses exemplos, que atravessam a fronteira porosa entre o que chamamos de movimento social e o que chamamos intervenção artística, há uma proposta ético-estética de como viver sua vida com os outros. Há também, como ressaltei, um chamado ao envolvimento com a ética transitiva entre artista e observador. Mas como, mais precisamente, este processo ocorre? Nestas situações, as relações intersubjetivas são criadas como parte do encontro, à medida que a forma do acontecimento pede e possibilita as interações humanas. Esta matriz de socialidade profundamente horizontal é o cerne do processo ético poiético: nós não só temos uma responsabilidade para com os outros, mas no convite ao diálogo criamos a possibilidade e as condições para um questionamento sobre o tipo de sujeito que queremos ser e o tipo de sociedade na qual queremos viver.

A definição do sul global através de uma série de práticas abre e expande a receptividade do projeto. Não há sentido binário aqui e, portanto, não há o sentido do ‘outro’ ameaçador e reificado, perversamente reforçado e fortalecido por sua contra-narrativa subjugada. As práticas que caracterizam o sul global são efêmeras, múltiplas e prefigurativas no sentido de que vivem o modelo que buscam criar. Como tal, rejeitam a epistemologia de qualquer narrativa dominante que configure a mudança e o progresso em termos de manifestos codificados e caminhos utópicos, e que acredite que a autoridade só pode ser reconhecida se for investida no indivíduo. Embora as práticas do sul global tenham ocorrido em escala transnacional, é essencial enfatizar mais uma vez que cada contexto deriva de um sistema de conhecimento local específico. A coreografia humana de massa do movimento Occupy toma emprestada a ênfase de David Graeber na política prefigurativa e no anarquismo; o foco do Opavivará na participação pode ser relacionado ao trabalho em conjunção com o observador imaginado por Lygia Clark e Hélio Oiticica; e a multiplicidade de subjetividades políticas de Tania Bruguera, geradas por uma simples plataforma de debate, ecoa as perspectivas múltiplas inerentes no trabalho de Felix Gonzalez-Torres, e sua recusa de apagar significação. Assim, essas práticas, formadas por epistemologias específicas, apresentam uma certa compatibilidade que lhes permite responder a um contexto global, desvencilhando-se de acusações pejorativas de provincianismo e transcendendo seu contexto regional. Esta compatibilidade está situada em seu convite aberto e inclusivo à participação na elaboração de subjetividades políticas múltiplas em contextos relacionais. Esta subjetividade multifacetada é revolucionária em seu chamado a ‘becoming otherwise’ no vocabulário de Elizabeth Povinelli, e profundamente política: depois da ênfase de Chantal Mouffe na dissensão, esses espaços convidam as pessoas a empreender um processo de auto cultivo ético, transformando o coletivo e os interesses, em seu impacto potencial, ainda que não imediato. Assim, as práticas do sul global, formadas por e enraizadas em epistemologias locais e específicas, se distanciam da reificação do indivíduo e, portanto, do líder, rejeitando uma trajetória linear clara em direção ao futuro e tornando a propriedade de uma ideia aberta a todos.








auflynn [at] ucla.edu



Alex Ungprateeb Flynn is an Assistant Professor at the Department of World Arts and Cultures/Dance, University of California, Los Angeles. Working as an anthropologist and curator, Alex’s practice explores the intersection of ethnographic and curatorial modes of enquiry. Researching collaboratively with activists, curators and artists in Brazil since 2007, Alex explores the prefigurative potential of art in community contexts, prompting the theorisation of fields such as the production of knowledge, the pluriversal, and the social and aesthetic dimensions of form.